|

Brasil Econômico
01 de fevereiro de 2010
Diabetes traz Roche de volta à briga por espaço na farmácia
Após mudar estratégia para venda hospitalar, multinacional prepara lançamento de nova família de medicamentos no varejo.
Afastada da linha de frente do varejo desde que redirecionou sua estratégia de negócios ao mercado hospitalar, a suíça Roche prepara retorno de impacto às farmácias com uma nova família de medicamentos para portadores de diabetes, cujo lançamento está previsto para 2012 no Brasil.
"Estamos desenvolvendo três produtos que farão uma nova abordagem ao tratamento da diabetes", diz ao Brasil Econômico o diretor-geral da Roche no Brasil, o ítalo-suíço Adriano Antonio Treve.
As novas drogas, cujas marcas e formas de aplicação são mantidas em sigilo, fecharão o pacote de produtos para diabetes, segmento no qual a empresa atua somente pela divisão de diagnósticos, com o Accu-Check, aparelho doméstico que permite a medição do nível de açúcar no sangue.
Enfermidade que atinge 246 milhões no planeta, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o diabetes tem 6,2 milhões de pacientes no Brasil, embora estimativas apontem até 10 milhões de pessoas com a enfermidade.
Para a Roche, a entrada nesse segmento representará uma mudança no perfil de negócios no país. "Acreditamos que o mercado de diabetes, no qual não atuamos com remédios hoje, poderá representar até 25% do faturamento no futuro", diz Treve.
A empresa, que faturou R$ 1,34 bilhão no Brasil em 2008, divulgará nos próximos dias o balanço do ano passado.
A volta às gôndolas ocorre após longo ciclo de distanciamento do varejo, desde que vendeu sua divisão global de Consumer Health, por US$ 3 bilhões, para a Bayer, em 2004.
Mesmo mantendo nas farmácias marcas consagradas como Lexotan e Rivotril (distúrbios nervosos) e o Xenical (redutor de peso), o varejo representa apenas 18% das vendas da farmacêutica no país. A exemplo de outras gigantes globais, a Roche optou por concentrar investimentos em inovação, sobretudo em biomedicamentos, cujo princípio ativo é obtido por meio de células vivas no lugar de insumos farmacológicos.
Nesse contexto, o Brasil ganha importância estratégica. Com marcado acento português, após oito anos à frente do escritório da companhia em Lisboa, até assumir a operação de São Paulo, em 2008, Treve destaca que o país, aproximando-se dos 200 milhões de habitantes e com uma população de notória diversidade racial, é vital para o desenvolvimento e teste de novos medicamentos.
"Elevamos em 65% o nosso investimento em pesquisa em 2009, para US$ 31 milhões (R$ 62 milhões), e queremos dobrá-lo até 2012", afirma o executivo.
Oncologia e Alzheimer
Embora a aposta no diabetes redirecione a companhia às vendas de balcão, a Roche segue firme na estratégia de priorizar o mercado hospitalar. Nessa área, a empresa está bem posicionada na venda de drogas oncológicas, com destaque para o câncer de mama, colo retal e linfomas, que representam 60% de volume de negócios no Brasil.
Além da oncologia, a Roche mira novos mercados que crescem com o envelhecimento da população, especialmente em doenças do sistema nervoso, como os males de Alzheimer e Parkinson.
"Investimos no último ano R$ 50 milhões por dia em todo o mundo, incluindo domingos e feriados. Para criar novos medicamentos que avancem no tratamento e cura de doenças delicadas como câncer e Alzheimer, esse esforço só tende a aumentar", diz Treve.
Gripe suína rende R$ 611 milhões
Paralelamente ao atendimento do mercado hospitalar privado, principal filão de negócios da Roche no Brasil, a companhia pretende ampliar significativamente sua atuação como fornecedora da rede de saúde estatal, que hoje representa menos de 15% do faturamento da multinacional no país. “Uma das nossas prioridades é multiplicar nossa participação no sistema público”, afirma Adriano Antonio Treve, diretor geral da Roche no país. A principal aposta da empresa é na oferta de medicamentos oncológicos, seu principal foco de atuação, onde o governo brasileiro começa a concentrar mais recursos.
Até agora, contudo, a gripe suína revelou-se como a galinha dos ovos de ouro da Roche para o setor público. Dona do Tamiflu, principal medicamento para tratamento do vírus H1N1, causador da gripe tipo A, ou suína, a multinacional suíça faturou R$ 611,3 milhões em dois contratos firmados em 2005 e 2009, de acordo com dados fornecidos pelo Ministério da Saúde (MS).
Foram entregues ao todo lotes de 22,6 milhões de tratamentos. Desse total, foram 13,4 milhões em medicamentos acabados, além de 9.254 quilos de matérias-primas farmacológicas destinadas à produção pelos laboratórios do próprio governo, que renderam outros 9,2 milhões de tratamentos. O investimento de R$ 1 bilhão anunciado na semana passada peloMS para a prevenção à gripe suína envolvem apenas a compra de vacinas. Não há, por enquanto, previsão de novas aquisições de Tamiflu com a Roche, que não comenta sobre negociações e contratos envolvendo ministério.
No caso do diabetes, onde a companhia pretende entrar em 2012, o potencial também é atrativo: somente em compra de insulina, o Ministério da Saúde gastou R$ 70 milhões no ano passado. Para a Roche, o desafio é oferecer ao sistema público novas gerações de medicamentos que já são comercializadas nas redes de hospitais privadas. “O governo brasileiro vem melhorando muito o atendimento à população em geral, mas ainda não investe na oferta de drogas mais avançadas”, diz Treve.
Farmacêutica busca comprador para fábrica no Rio
A compra da totalidade das ações da americana Genentech, por US$ 46,8 bilhões em março do ano passado, reafirmou o posicionamento da Roche no mercado de biomedicamentos, cujos princípios ativos são obtidos a partir de células vivas e representam a nova fronteira da farmacologia moderna. Líder nessa classe de drogas, a Genentech deu novo impulso à área de desenvolvimento da Roche, a exemplo de outras gigantes do setor, como Genzyme, Pfizer e Novartis, que vêm reforçando os investimentos em inovação para o desenvolvimento de patentes de alto valor agregado, para escapar da disputa por escala deflagrada pelo avanço da indústria de genéricos. Atualmente, oito em cada dez produtos da Roche têm origem biológica.
“Os investimentos em pesquisa e inovação ganharam muita importância nos últimos anos como uma alternativa das empresas para não sofrer com a queda acentuada de rentabilidade no momento em que as patentes dos produtos expiram. Nesse sentido, a biotecnologia é uma das áreas mais promissoras da indústria”, afirma Nelson Mussolini, vice-presidente executivo do Sindicato da Indústria Farmacêutica (Sindusfarma).
Um efeito colateral dessa tendência é a redução da demanda industrial,uma vez que os biomedicamentos são mais caros em seu processo de pré-desenvolvimento, mas exigem unidades de produção bemmais enxutas. Desde a compra da Genentech, a Roche vem reduzindo o número de unidades fabris no mundo e está buscando uma solução para a fábrica instalada em Jacarepaguá (RJ), que responde pela produção de todos os medicamentos a base de fármacos químicos no país. “Estamos analisando a venda ou o arrendamento da fábrica para um terceiro fabricante, que passaria a produzir para nós sob contrato. É uma decisão que vamos tomar com calma, não temos ainda uma solução definida”, afirma Adriano Treve, diretor- geral da Roche no país.
Na opinião de Mussolini, a migração de investimentos para biomedicamentos não representa, em si, uma ameaça à indústria nacional, desde que mercado e agentes públicos não ignorem essa tendência. “Embora a biotecnologia tenha uma demanda industrial muito menor, isso não afeta diretamente a produção no Brasil. O que não podemos é deixar que aconteça com essa nova classe de produtos o mesmo que ocorreu com a produção de fármacos químicos (insumos para a produção de remédios convencionais), que foi dominada pelos países asiáticos em função de uma série de políticas de incentivo, prejudicando a balança brasileira na área farmacêutica.”
(Arnaldo Comin)
|