Jornal Valor Econômico
Pequim e Hong Kong - 05 de abril de 2010


Remédios na China prometem curar de tudo

Quando Pang Jianli entrou numa farmácia de Pequim para comprar remédio para o seu filho acometido de gripe, foi recebido por uma assombrosa exposição de caixas e vasilhames decorados com promessas de curas milagrosas. "Ao contrário da compra em supermercados, onde compro as marcas que conheço, e eu conheço as marcas que compro, comprar remédios é diferente; as marcas que você conhece podem não ser o que elas alegam ser", disse esse pai de 38 anos.

O deficientemente regulamentado mercado médico da China deu origem a um novo "faroeste" para medicamentos não testados oferecidos por firmas de reputação duvidosa. O clima de "vale tudo" médico remete à era dos "vendedores de poções milagrosas" de mais de um século atrás nos Estados Unidos.

De tratamentos de impotência, passando por drogas que evitam a queda de cabelos e até medicamentos que curam enfermidades crônicas, os consumidores chineses são bombardeados por anúncios de uma vasta gama de remédios que fazem promessas falsas ou exageradas.

Analistas dizem que as práticas comerciais nebulosas e as alegações enganosas podem na verdade ajudar o futuro das companhias farmacêuticas estrangeiras, que se debatem por um pedaço do mercado de medicamentos de US$ 110 bilhões na China. "Hoje em dia, os chineses não confiam nos medicamentos chineses. Eles confiam mais nas marcas ocidentais, já que elas desfrutam melhor reputação", disse Huang Jianshi presidente-adjunto da Academia Chinesa de Ciências Médicas e do Union Medical College de Pequim.

Companhias de fármacos estrangeiras, como GlaxoSmithKline e Pfizer, geralmente atuam diretamente com hospitais e médicos e raramente anunciam, explicou Du Jinsong, analista do setor farmacêutico no Crédit Suisse em Hong Kong. "Anúncios fraudulentos de drogas exercem impacto limitado sobre as marcas estrangeiras, uma vez que as companhias estrangeiras vendem e comercializam os seus produtos de forma diferente", ele disse.

Os tratamentos agressivamente alardeados não se limitam a prometer curar a calvície ou eliminar rugas; alguns remédios também alegam curar condições crônicas como hepatite B, uma doença que algumas vezes traz como consequência a necessidade de realizar um transplante de fígado, disse Ewan So, presidente da Sociedade de Farmacêuticos de Hong Kong. "Se existisse um medicamento mágico assim, já o teríamos usado", ele disse. "Um transplante de fígado custa 500 mil a 600 mil dólares de Hong Kong. Para que se dar todo esse trabalho?", pergunta.

A Administração Federal de Drogas e Alimentos (SFDA, na sigla em inglês) da China contou 329.613 casos de distribuição de remédios e produtos médicos sem licença em 2007 e cobrou 746 milhões de yuans (US$ 109 milhões) em multas. As multas, porém, pouco fizeram para impedir a venda de remédios não testados num país em que a regulamentação é escassa e a fiscalização, frouxa.

Analistas dizem ser difícil mensurar em que medida a falta de confiança do público nos anúncios afetou a venda de remédios, que cresceu 26%, indo a 752 bilhões de yuans (US$ 110 bilhões) no ano passado na China. "Assim como qualquer outro tema social na China, agora já dispomos de política adequada por lá. A questão mais fundamental é como fiscalizar eficazmente o cumprimento da lei", disse Xu Jun, uma analista da indústria farmacêutica no Orient Securities em Xangai.

Na tentativa de promover uma faxina no setor, Pequim decretou uma série de restrições à publicidade de serviços e produtos médicos. A regra mais recente, promulgada em fevereiro, proibiu que atores personificassem especialistas médicos em anúncios de medicamentos, depois de um grupo de monitoradores de internet ter exposto vários falsos especialistas. A exemplo de muitas regulamentações na China, as regras não têm sido rigorosamente fiscalizadas. "Ainda existem aqueles comerciais de TV de meia hora de duração com pessoas que dizem como foram completamente curadas depois de terem tomado um certo remédio ou injeção", disse o militante Qing Song, portador de hepatite B. "Mas eles estão completamente errados".

Uma companhia chinesa promoveu um tratamento contra a impotência fazendo crer que o astro do futebol David Beckham teria apoiado o produto, apesar de seu nome e sua imagem terem sido usados sem a sua permissão. No comercial, que exibiu um filme de Beckham jogando futebol, uma voz falando em mandarim, que dava a entender que seria a do jogador de futebol inglês, louvava as virtudes do tratamento. "Você quer saber como posso me manter forte e correr no campo?" disse o locutor. "As cápsulas USA Selikon me dão uma grande ajuda. Elas também são a arma secreta com a qual satisfaço Vitória", disse a voz, referindo-se à mulher de Beckham. A legislação chinesa dificulta que celebridades internacionais como Beckham processem firmas que usam suas imagens sem seu consentimento.

Apesar das proibições, os produtos médicos não testados e sem licença são vigorosamente promovidos na internet, TV e painéis de propaganda, assim como em jornais e revistas por toda a China. Outro problema é a pirataria de remédios. Algumas vezes os remédios falsos são empacotados e vendidos de forma a se assemelharem a medicamentos de firmas com boa reputação.

Numa situação em que muitos chineses carecem de cobertura médica integral e que optam por automedicação, em vez de visitar médicos, os especialistas dizem que regulamentação mais rigorosa e melhor fiscalização são fundamentais para eliminar firmas de má reputação. O que está em risco é a saúde de dezenas de milhões de pessoas que compram esses medicamentos por toda a China. "Ao contrário do alimento contaminado que podemos evitar, as pessoas precisam tomar comprimidos mesmo depois de terem ouvido tanta notícia negativa sobre qualidade de remédios", queixou-se Pang, enquanto deixava a farmácia.

(Michael Wei e Tan Ee Lyn - Reuters)