Jornal Valor Econômico
Rio de Janeiro – 12 de Dezembro de 2011


Fármacos e cosméticos ganham em eficiência

Entre as aplicações da nanotecnologia está o uso de nanopartículas em produtos para consumo humano nas áreas de fármacos, cosméticos, fertilizantes e produtos químicos. Biolab e Aché, na área farmacêutica, e L'Oréal, O Boticário e Natura, no setor de cosméticos, são exemplos de empresas que usam a técnica da nanoencapsulação - permite isolar princípios ativos, a fim de conferir-lhes mais proteção e ampliar suas propriedades.

De acordo com a pesquisadora Natália Neto Pereira Cerize, do laboratório de processos químicos e tecnologia de partículas do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT), essa técnica reúne conceitos de ciência dos materiais, tecnologia de processos e química. No caso dos fármacos, informa Natália, possibilita "conferir novas propriedades, como diminuição da volatilidade, prevenção da degradação do princípio ativo ou interação incompatível com outros componentes de fórmula; reduzir efeitos colaterais e direcionar o princípio ativo precisamente para o tecido alvo".

Por meio da nanoencapsulação, o IPT, em parceria com a Fermavi, desenvolveu um sulfato ferroso para ser misturado a farinhas de pão e usado como suplemento no tratamento da anemia - a técnica elimina problemas de absorção, cor forte e sabor ruim da substância. O IPT também criou plataforma tecnológica que resultou em patente depositada em 2010 e está em negociação de licenciamento com uma indústria alimentícia.

Desde 2006, o Instituto Nacional de Tecnologia (INT) faz a nanoencapsulação de princípios ativos que atuam no tratamento da tuberculose, com patente depositada no Brasil e nos Estados Unidos. O projeto passará por teste clínico em 2012. "O objetivo é a redução drástica da dosagem e do tempo de obtenção da cura", afirma Fabio Moyses Lins Dantas, pesquisador do laboratório de tecnologia de materiais polímeros do INT.

Em parceria com a Universidade Federal Fluminense e o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, o INT, por meio da nanoencapsulação, produz também a hidroxiapatita, componente mineral do osso de ação anti-inflamatória, analgésica e cicatrizante, cuja patente está sendo depositada no Brasil e no exterior.

Ainda são poucas as empresas especializadas nesse processo inovador e de alta tecnologia. Criada em 2006 como resultado da tese de doutorado da pesquisadora Betina Giehl Zanetti Ramos, que também fez mestrado sobre o tema, a Nanovetores é uma delas. Instalada em Florianópolis, Santa Catarina, e incubada no Centro Empresarial para Laboração de Tecnologias Avançadas (Celta), ligado à Universidade Federal de SC, a empresa tem cinco patentes e três prêmios de inovação. Com foco atual em cosméticos, presta serviços para duas multinacionais - casa de fragrâncias e empresa de insumos cosméticos -, e atende a pedidos de outros segmentos industriais. Para atingir seus objetivos, a Nanovetores projeta os próprios equipamentos, fabricados por indústrias nacionais.

Sua principal patente é a de vetores ativos multifuncionais, à base de ceras extraídas de frutos da Amazônia, como murumuru e cupuaçu. A empresa também investe em segurança, por meio de estudos de toxidade, testes clínicos e de eficácia. "Ainda não há regulamentação específica em relação ao uso de nanopartículas, mas decidimos nos antecipar", ressalta Betina.

O Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro), por meio da Diretoria de Programas (Dipro), vem desenvolvendo métodos de ensaio para toxidade de nanopartículas. O projeto - realizado em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e o Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde e os pesquisadores do Centro Nacional da Pesquisa Científica da França, Pascal Sommer e Bernard Verrier - visa avaliar a toxidade das nanopartículas, usando tecidos similares aos tecidos humanos.

Dante Alário Júnior, presidente da divisão científica da Biolab, que fabrica quatro produtos nano, informa que, em quatro anos de pesquisas e testes clínicos, não se constatou toxidade em nenhum deles. Os produtos são o Photoprot, de indicação pós-cirúrgica, com fator de proteção solar 100, desenvolvido em conjunto com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul e lançado há dois anos; o Skan, fitoterápico antiacne à base de andiroba; um anestésico e um antimicótico para unhas. O executivo teme que uma regulamentação equivocada possa inibir os esforços de inovação. "Meu receio é que, por medo e desconhecimento, as pessoas que vão realizar as análises digam 'não' antecipadamente e imponham regras e normas que possam inviabilizar a inovação", alerta Alário Júnior.

(Carmen Nery)