Jornal Valor Econômico
Suiça - 17 de Maio de 2011


Presidente da Fiocruz é cético com remédio nacional

O presidente da Fiocruz, Paulo Gadelha, admitiu ontem que o esforço do governo para estimular a produção da indústria farmacêutica nacional está apenas "enxugando gelo" no momento, por causa do real valorizado e outros fatores. "O setor está sempre sob ameaça e as parcerias público-privadas e presença do governo ajudam", afirmou ele, à margem da Assembleia Mundial da Saúde. "O governo coloca seu peso na demanda, puxando o fortalecimento dessa cadeia de inovação. O problema é que tem o preço Brasil e outras coisas."

Gadelha indicou que o déficit na balança de comércio de medicamentos e materiais quase triplicou, passando de US$ 3 bilhões a US$ 4 bilhões há oito anos para US$ 10 bilhões atualmente. "Por mais que tenhamos feito esforço, você está enxugando gelo. Há uma maior demanda [por remédios], mas tem a importação barata."

Desde o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, um dos pilares da política industrial tem sido de dar força à produção nacional de medicamentos. O ministro de Saúde, Alexandre Padilha, destacou ontem em Genebra políticas específicas, com parcerias públicas-privadas e lei que permite usar licitação para estimular produção nacional, como comprar produtos de tecnologia nacional mesmo com 25% mais caro, desde que agregue tecnologia.

O ministro disse já ter conseguido aumentar em 73% o registros de genéricos nos três primeiros meses do ano. E que a política para acelerar a produção inclui toda uma linha de financiamento, compra governamental para estimular a fabricação de genéricos, incluindo parcerias como as cinco já fechadas este ano com o setor privado.

Para Padilha, só aproveitar parte das 200 patentes de grandes laboratórios que vão expirar nos próximos anos e produzir genéricos no país "já é muita coisa". Gadelha acrescenta que a Fiocruz tem vários projetos engatilhados, mas a produção nacional de uma vacina contra dengue está um ano atrasada em relação ao grande laboratório Sanofi Pasteur, por exemplo.

Por outro lado, o ministro Padilha confirmou para o segundo semestre abertura de negociações com a indústria de alimentos para reduzir o teor de gordura trans nos produtos. Copiará o acordo já feito para reduzir o teor de sódio e de açúcar, já em vigor.

A gordura trans tem maior concentração nas bolachas, pipocas de micro-ondas, chocolates, sorvetes, salgadinhos, pastéis, folhados, tortas e bolos. Especialistas dizem que sanduíches de restaurantes de fast-food estão no topo da lista de alimentos com gordura trans.

(Assis Moreira)