Jornal Valor Econômico
São Paulo - 18 de Março de 2011


Sem inovação, déficit na balança comercial corre o risco de crescer

Os laboratórios farmacêuticos nacionais detêm um dos maiores déficits setoriais da indústria brasileira, um resultado que poderá ser ampliado nos próximos anos. A inclusão de novos consumidores de medicamentos com a ascensão social das classes C e D, o envelhecimento da população e o maior diagnóstico de doenças de primeiro mundo como câncer e diabetes poderão aumentar a demanda por remédios e piorar o desempenho da balança comercial da área, caso não sejam ampliados investimentos em inovação e desenvolvimento dos laboratórios.

De acordo com Associação Brasileira das Indústrias de Química Fina, Biotecnologia e suas Especialidades (Abifina), em 2010, as importações de medicamentos, farmoquímicos e vacinas humanas chegaram a US$ 6,7 bilhões, alta de 33% frente aos US$ 5 bilhões em 2009. Já as exportações chegaram a US$ 1,5 bilhão em 2010, mais 36% em relação aos US$ 1,1 bilhão do ano anterior. Ou seja, o déficit chegou a US$ 5,2 bilhões. "O desempenho negativo é bem expressivo e histórico. Muitas empresas estão importando o produto quase acabado, e o câmbio acaba sendo um desincentivo à exportação", diz o primeiro vice presidente da Abifina, Nelson Brasil de Oliveira.

Há um caminho principal para reduzir esse déficit: ampliar os investimentos em inovação e desenvolvimento, que hoje estão em torno de 5% do faturamento das empresas, menos da metade do que os maiores players aplicam nos Estados Unidos e na Europa. "É fundamental ter um ambiente que estimule com vigor a inovação, esse é um passo essencial, mas, para reduzir o déficit ao longo da década, será necessária uma mudança estrutural do setor", afirma Antônio Britto, presidente executivo da Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma).

Para Pedro Palmeira, chefe do departamento responsável pelos fármacos do BNDES), o ambiente atual pelo qual a indústria passa é uma janela de oportunidades para a qual os gestores têm de se preparar. "Para que o país possa ter uma posição diferenciada na indústria internacional, é essencial que haja foco na inovação", diz. Nos financiamentos do BNDES ao setor, entre janeiro de 2010 e janeiro de 2011, foram destinados R$ 329 milhões para pesquisa e desenvolvimento, enquanto para ampliação modernização de fábricas foram destinados R$ 155 milhões.

Os laboratórios nacionais começam a mirar o mercado internacional. Um exemplo é a Eurofarma, que iniciou sua internacionalização em 2009 com a aquisição da argentina Quesada. A empresa já tem operações no Chile e no Uruguai, o que permite atingir os mercados do Paraguai e Bolívia. Hoje, a Eurofarma alcança 56% do território latino-americano, mas a intenção é chegar a 90% até 2015. Em 2011, a empresa poderá anunciar uma ou duas operações de aquisições no exterior, afirma a diretora de sustentabilidade & novos negócios da Eurofarma, Maria Del Pilar Muñoz. Atualmente, as exportações respondem por menos de 5% do faturamento da empresa.

A EMS também busca aumentar as exportações, que vende para 32 países. No fim de 2010, a empresa passou a ter relações comerciais com a Inglaterra e Alemanha, países rigorosos na seleção de seus fornecedores. Hoje, o mercado externo responde por menos de 5% da receita da empresa.

(Roberto Rockmann)