Jornal Valor Econômico
EUA - 19 de Maio de 2011


Tratamento contra câncer entra em nova fase

As companhias farmacêuticas há muito vendem tratamentos contra o câncer que eliminam os tumores com quimioterapia, ou usam medicamentos caros para bloquear os genes mutantes que alimentam o crescimento do câncer. Recentemente, companhias como a GlaxoSmithKline (GSK), Eli Lilly e Novartis começaram a usar uma terceira abordagem: a reprogramação do DNA anormal que pode transformar células normais e células cancerígenas.

Esses novos medicamentos exploram o epigenoma, o mecanismo molecular que as células usam para ligar e desligar os genes, dizendo a eles quando produzir proteínas que cumprem a maioria das funções da vida. No ano passado a Celgene conseguiu receita de US$ 534 milhões com composto epigênico Vidaza, que proporciona mais alguns meses de vida para pacientes com leucemia. Essa abordagem levou a três outros medicamentos (aprovados) contra o câncer no sangue, da Eisai do Japão, da Merck e da Celgene.

Uma recompensa maior virá com medicamentos de grande vendagem que tratam milhões de pessoas que sofrem de formas de câncer mais comuns - e mais lucrativas -, como as que afetam os pulmões, seios e próstata. Em janeiro, a Epizyme, companhia que tem como um dos fundadores o vencedor do prêmio Nobel H. Robert Horvitz, fechou acordo de US$ 650 milhões com a GSK para a pesquisa de medicamentos epigênicos contra o câncer. Novartis, GSK, Eli Lilly e pelo menos quatro companhias iniciantes, apoiadas por capital de risco, também estão correndo para desenvolver medicamentos de reprogramação de células para os tipos de câncer mais comuns. "Toda grande companhia que conheço tem um programa epigênico", afirma Jean-Pierre Issa, um oncologista do MD Anderson Cancer Center da Universidade do Texas, em Houston.

Um dos motivos: os medicamentos contra o câncer são os mais vendidos no mundo, com US$ 22,3 bilhões em vendas nos EUA em 2010, em comparação a US$ 15,8 bilhões em 2006, segundo a IMS Health. Um composto bem sucedido pode gerar vendas enormes rapidamente. A última abordagem nova ao câncer - atacar os genes mutantes ou excessivamente ativos - levou ao Gleevec, um medicamento contra a leucemia vendido pela Novartis, e ao Sutent, uma droga da Pfizer contra que combate o câncer no fígado. Ambos tiveram vendas anuais superiores a US$ 1 bilhão nos cinco anos após lançamento.

Desde a década de 1980 os cientistas vêm se concentrando nos tipos de câncer causados por danos no DNA, como os males provocados pelo fumo. Stephen Baylin, um biólogo estudioso do câncer da Universidade Johns Hopkins, diz que novas pesquisas constataram que os defeitos no controle epigênico de moléculas também podem ser uma causa muito importante do câncer.

Pesquisadores descobriram centenas de moléculas que controlam os códigos de barras genéticos do DNA. Normalmente esses códigos ajudam as células-tronco a desenvolver uma identidade especial, afirma C. David Allis, um dos fundadores da Constellation Pharmaceuticals. No câncer, alguns dos códigos parecem ser alterados. Por exemplo, as moléculas epigênicas são danificadas em 60% dos pacientes com tumores gastroenteropancreáticos. Outra molécula é anormal em 41% dos casos de câncer no fígado.

Com os medicamentos epigênicos, "o conceito terapêutico é reverter esses códigos de barras de volta à normalidade", afirma Jonathan M. Yingling, vice-presidente de pesquisas do câncer da Eli Lilly.

(Robert Langreth / Bloomberg BusinessWeek)