Jornal Gazeta Mercantil
Londres - 24 de maio de 2010


Novo modelo de saúde reduz lucro de laboratórios nos EUA

As companhias farmacêuticas dos países desenvolvidos estão preocupadas com a reforma do sistema de saúde dos Estados Unidos, que elas acreditam que poderá causar perda de US$ 2 bilhões em vendas este ano. Ao mesmo tempo, elas estão adotando pontos de vista bastante divergentes sobre a eventual necessidade de um ajuste de suas diretrizes financeiras e o grau em que isso deverá ocorrer.

A maior parte das grandes companhias farmacêuticas está estimando uma queda de 1% a 3% nas vendas este ano, uma vez que, segundo informações divulgadas por elas, as reformas propostas pelo presidente Barack Obama vão reduzir os preços dos medicamentos - com a previsão de um impacto duas vezes maior em 2011.

A Eli Lilly estima que as reformas vão reduzir suas receitas em até US$ 400 milhões este ano e em até US$ 700 milhões, em 2011. A Pfizer disse acreditar que as reformas irão encolher suas receitas em US$ 300 milhões, em US$ 900 milhões em 2011 e US$ 800 milhões em 2012. A GlaxoSmithKline (GSK) do Reino Unido disse que sua receita também será afetada em US$ 300 milhões em 2010.

Entretanto, os grupos americanos estão sendo mais agressivos na revisão da queda dos lucros do que seus congêneres europeus. A maior parte dos grandes grupos reduziu este mês suas diretrizes para que elas reflitam o impacto da reforma do sistema de saúde dos Estados Unidos. A Eli Lilly, por exemplo, disse recentemente que as reformas vão reduzir seus lucros por ação de US$ 4,65 - US$ 4,85 para US$ 4,40 - US$ 4,55. Enquanto isso, a Baxter revisou sua estimativa de lucro por ação de US$ 4,20 - US$ 4,28 para US$ 3,92 - US$ 4,00.

Lamberto Andreotti, presidente da Briston-Myers Squibb, uma das companhias que poderão ser mais afetadas, disse que os lucros por ação serão 12 centavos de dólar menores com o sistema de saúde este ano, ou 5 centavos menos após a adoção de medidas de alívio.

"Acho que eles estão exagerando", diz um observador do mercado, afirmando que ao criarem uma grande provisão, as companhias americanas reduzem as expectativas de um potencial lucro e limitam os riscos de um novo revés, mostrando que elas já vêm sendo atingidas enquanto os planejadores econômicos buscam novas maneiras de cortar os custos.

Gbola Amusa, analista do UBS para o setor farmacêutico, diz: "Fico imaginando que as companhias estão descrevendo o pior cenário do impacto das medidas sobre seus negócios. É uma decisão de negócios prudente. A realidade poderá se mostrar menos dura."

No entanto, muitas companhias farmacêuticas estão mais expostas à reforma do sistema de saúde nos EUA do que suas congêneres europeias. Uma análise feita pelo Citigroup sugere que as grandes companhias farmacêuticas americanas conseguem de 42% a 64% de suas receitas no mercado doméstico, com a Bristol-Myers Squibb gerando 64% de suas vendas nos EUA. Enquanto isso, a exposição máxima ao mercado dos EUA entre as companhias europeias é de 42%, da AstraZeneca do Reino Unido.

Num comentário típico de seus colegas europeus, Andrew Witty, executivo-chefe da GSK, disse no mês passado: "Já absorvemos a reforma do sistema de saúde americano. Estou cada vez mais confiante em relação ao rumo dos negócios. Os ventos que sopram contra começaram a diminuir e os que sopram a favor, a aumentar".

Amusa disse que a reforma do sistema americano vai aumentar o desconto no Medicaid de 15% para 23% dos preços médios este ano, mas algumas companhias já oferecem descontos maiores e terão poucos problemas adicionais.

(Andrew Jack / Financial Times)