| 
Jornal O Globo
São Paulo - 29 de junho de 2010
Medicamentos terão R$ 3 bi de investimentos
A francesa Sanofi-Aventis prevê investir quase R$ 300 milhões na ampliação de duas fábricas e na construção de uma quarta no Brasil. Em outra frente, a Eurofarma, de controle brasileiro, vai concluir neste ano um pacote de R$ 400 milhões em desembolsos para triplicar a capacidade de produção de sua unidade em Itapevi, na região metropolitana de São Paulo. A Sanofi-Aventis e a Eurofarma são dois exemplos do atual movimento dos laboratórios farmacêuticos no país. Com a perspectiva de forte expansão dos negócios nos próximos anos, grupos nacionais e estrangeiros se lançaram numa corrida para assegurar uma fatia maior do mercado brasileiro de medicamentos. Como resultado, especialistas calculam em mais de R$ 3 bilhões o volume de investimentos só neste ano, metade disso voltado apenas para aquisições.
- Não vamos ficar fora dessa briga - diz o diretor da área Internacional e de Exportação da Eurofarma, Wesley Pontes.
Estabilidade da economia amplia acesso a remédios
O Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos de São Paulo (Sindusfarma) estima crescimento de 8% para o faturamento do setor neste ano, alcançando quase R$ 36,4 bilhões. Em número de unidades vendidas, a previsão é superar o patamar recorde de 1,8 bilhão de caixas, registrado 1997.
A estabilidade da economia brasileira ampliou o acesso da população a planos de saúde e a compra de medicamentos. Outra razão é que a crise financeira global provocou uma estagnação dos mercados de países desenvolvidos, que não devem apresentar crescimento superior a 3% nos próximos anos. Com isso, aumentaram as oportunidades nos chamados países emergentes.
De acordo com a consultoria IMS Health, em 2011 o mercado brasileiro deve ultrapassar o da Inglaterra; no mesmo período, os chineses comprarão mais medicamentos do que franceses e alemães. Ainda pelos dados da consultoria, os 15 maiores grupos farmacêuticos do mundo têm hoje menos de 10% de suas vendas originadas em países emergentes - e esse quadro terá de ser alterado, se quiserem continuar no azul.
O mercado brasileiro também tem sido alimentado pela perspectiva de quebra de patentes de diversos remédios. Até 2012, 30 perderão sua proteção legal no Brasil. É o caso do campeão de vendas Viagra, da americana Pfizer, cuja validade expirou no último dia 20.
O fim das patentes vai estimular a produção de genéricos, e as estimativas apontam para uma explosão no volume de negócios. A previsão é que o segmento passe a movimentar até R$ 900 bilhões extras entre 2010 e 2012 por conta dos medicamentos de marca que vão perder a patente neste período. Em 2009, a venda de genéricos representou 15% do faturamento total dos laboratórios no Brasil, contra menos de 10% cinco anos atrás.
- Se esse prazo for ampliado até 2014, é possível falar em um mercado em potencial de mais de R$ 2,6 bilhões - diz o vice-presidente de mercado da EMS, Waldir Eschberger Júnior, que avalia a possibilidade de abrir capital e, com os recursos, alavancar sua expansão.
A agitação pode ser medida também pelo volume de negociações em andamento. Segundo informações de mercado, a Pfizer negocia a compra da Teuto, a primeira fabricante de genéricos no país. A mesma Teuto - com sede em Anápolis (GO) e faturamento anual próximo de R$ 280 milhões - também teria recebido a visita de representantes de pelo menos mais dois interessados: da Aché e da GlaxoSmithKline. No ano passado, a britânica Glaxo já havia apresentado uma proposta de parceria a Aché, uma negociação que não gerou resultados. Procurado, o Teuto disse que não faria comentários.
- A companhia tem grande interesse em ampliar a sua atuação no Brasil, que é uma das prioridades para a empresa, por conta do seu tamanho e potencial de crescimento para os próximos anos - diz o diretor de Planejamento de Negócios da Pfizer Brasil, Gustavo Petito.
A última grande operação foi a compra da Neo Química pelo grupo brasileiro Hypermarcas, no início de dezembro passado, negócio avaliado em R$ 1,3 bilhão e que também teve como concorrente a Pfizer. A Hypermarcas já era líder do segmento de medicamentos isentos de prescrição (OTC) e passou a deter posição de destaque no mercado de genéricos e similares.
O Brasil abriga cerca de 80 laboratórios de genéricos, a maioria de pequeno porte. Para fugir da valorização desses ativos, alguns laboratórios brasileiros também estão aproveitando para aumentar sua área de influência em outros países. Um dos interessados é a EMI, que já exporta para mais de 30 países da América Latina, Europa, África, Ásia e Oriente Médio. Há duas semanas, a Eurofarma - outro que considera a abertura de capital - anunciou a compra do Laboratório Gaultier, no Uruguai. O grupo brasileiro já é dono da argentina Quesada.
- Queremos ser uma multinacional verde-e-amarela no setor - disse Pontes, explicando que a meta é estar presente em 90% do mercado latino-americano até 2015.
(Aguinaldo Novo)
|